5. COMPORTAMENTO 17.4.13

1. PODRIDO SANITRIA
2. ELAS ESTO BEBENDO DEMAIS
3. CRAQUES NO BANCO DE RESERVAS
4. HISTRIAS QUE ASSUSTAM A ONU
5. COMEOU A ONDA DE DEMISSES
6. O FIM DE DAVID: TAMANHO  DOCUMENTO
7. OS ESPERTOS DELATORES DE HITLER
8. AT QUANDO TEREMOS VTIMAS DA IMPUNIDADE?

1. PODRIDO SANITRIA
Como a omisso e a conivncia de mdicos veterinrios, ao no fiscalizarem a carne vendida no Pas, colocam em risco a sade da populao brasileira
 Natlia Mestre, Rodrigo Cardoso e Suzana Borin

 IRREGULARIDADES - Carcaas a cu aberto no matadouro Dois Irmos, em Novo So Joaquim (MT)
 
Sangue escorrendo livremente pelo cho, o ranger do serrote cortando ossos e pedaos de carnes jogadas por cantos imundos e ftidos. Essa cena se repete diariamente em matadouros e frigorficos localizados, principalmente, em cidades do interior do Brasil. Um levantamento nacional, feito durante nove meses pela ONG Amigos da Terra  Amaznia Brasileira, constatou que 30% da carne consumida no Pas no passa por nenhuma fiscalizao. Estamos colocando a vida dos brasileiros em risco, alerta Roberto Smeraldi, presidente da ONG. E, pior ainda, o estudo elaborado pela Amigos da Terra constatou que 70% dessa carne no  clandestina. Ou seja, apesar de imprpria para o consumo, ela passa facilmente pelos mecanismos de fiscalizao governamentais, pois transita por frigorficos e abatedouros autorizados a funcionar, com a aprovao concedida por mdicos veterinrios que tm o dever de atestar a origem e a qualidade do que ser levado  mesa dos brasileiros. Diante de um quadro to ameaador, a posio do presidente do Conselho Federal de Medicina Veterinria (CFMV), Benedito Fortes de Arruda, que deveria zelar para que seus profissionais cumpram com rigor suas atribuies,  espantosa: Se fssemos colocar em prtica todas as normas, teramos de fechar a maioria dos abatedouros que no tm fiscalizao federal, admite. A presena do veterinrio  uma regra que, na maioria dos casos, no  respeitada. E acabou se tornando uma prtica normal nesses estabelecimentos. O problema  que a omisso  ou conivncia  dos veterinrios com esses matadouros expe a populao a uma srie de doenas, como a tenase, que leva a perturbaes nervosas, e a potencialmente fatal tuberculose.

IRREGULARIDADES - Homem sem camisa abate boi no cho do matadouro: contra as regras de higiene e segurana
 
Atualmente, 1,39 mil frigorficos abatem 29,8 milhes de cabeas de gado por ano no Brasil. Desse total, apenas 206 estabelecimentos so fiscalizados pelo governo federal, onde existe um controle eficiente. Nos demais, a inspeo fica a cargo das administraes estaduais e municipais. As fraudes, segundo o estudo da ONG, ocorrem principalmente nesses ltimos. Percebemos que 80% desses estabelecimentos no possuem nenhuma condio de higiene e estrutura para estarem abertos. Pode-se dizer que so iguais, ou muito prximos, dos frigorficos clandestinos, diz Smeraldi. E o pior: a presena do veterinrio, quando existe, no funciona. Na prtica, muitos dos veterinrios contratados apenas assinam a liberao da carne, sem fazer nenhum tipo de verificao no gado ou nas condies do abate. O resultado do trabalho da ONG foi apresentado, na semana passada,  Comisso de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentvel do Senado. Parlamentares sugeriram a abertura de uma Comisso Parlamentar de Inqurito (CPI) para apurar as condies sanitrias de toda carne vendida no Brasil. Certamente, o Conselho Federal de Medicina Veterinria ser parte das investigaes. Na comisso tambm transita uma proposta para que seja elaborado projeto de lei visando unificar a fiscalizao, como ocorria no passado.

At 1989, a inspeo era nica. Com o objetivo de agilizar os processos, ela foi descentralizada. Mas a grande consequncia, na verdade, foi torn-la precria. Hoje, o controle s  eficaz nos abatedouros sob responsabilidade das autoridades federais  onde, inclusive,  produzida a carne para exportao. Esses obedecem a padres rgidos de higiene e segurana alimentar, os mdicos veterinrios so concursados e tm estabilidade no emprego. Em boa parte dos estabelecimentos sujeitos  fiscalizao municipal, por exemplo, a funo  um cargo de confiana da prefeitura, situao semelhante  da maioria dos Estados. Esse sistema fez com que houvesse a degradao das condies de trabalho. Os trabalhadores hoje passam por todo tipo de presso e ameaas, tanto dos proprietrios quanto dos polticos, e no tm a quem recorrer, diz Wilson Roberto S, presidente do Sindicato Nacional dos Fiscais Federais Agropecurios (Anffa).

Para Estados e municpios, a adeso aos padres rgidos de higiene e segurana alimentar  voluntria e, segundo pesquisa da Confederao Nacional dos Municpios (CNM), apenas 20% das prefeituras brasileiras as seguem. Alm disso, 68% dos municpios nem sequer tm um servio de inspeo instalado. O grande problema est no abate no inspecionado, o chamado clandestino oficial, diz Pricles Pessoa Salazar, presidente da Associao Brasileira de Frigorficos (Abrafrigo). Essa carne, mais barata, normalmente  destinada aos aougues de bairro ou pequenos estabelecimentos populares nas periferias. At a carne seguir para os pontos de venda, ela deve ser acompanhada por dois profissionais da rea veterinria: o veterinrio RT, responsvel pelas condies da estrutura e higiene dos abatedouros e frigorficos, e o fiscal veterinrio, especializado em sade animal, que acompanha todo o procedimento de abate. Porm, a presena desses profissionais, muitas vezes,  pr-forma. Existe apenas no carimbo deixado por eles mesmos no local.

Essa prtica foi documentada em vdeo pela ONG Amigos da Terra em um frigorfico em Parapau, no interior de So Paulo, onde faltam azulejos nas paredes e os animais so cortados no cho porque os ganchos nos quais as peas deveriam ser penduradas esto enferrujados. O veterinrio, cujo nome  mantido sob sigilo at o final da investigao, cedeu seu carimbo aos funcionrios do abatedouro para que eles mesmos exercessem o papel de fiscal. Os veterinrios mantm esse tipo de servio como um bico, j que  difcil encontrar uma prefeitura que pague um salrio de R$ 6,5 mil, valor condizente com o trabalho de fiscalizao, reconhece Francisco Cavalcanti de Almeida, presidente do Conselho Regional de Medicina Veterinria do Estado de So Paulo. A soluo encontrada por parte dos prefeitos  contratar um profissional sem especializao na rea, algo que sai bem mais barato. Apesar de constatada a fraude, no se tem conhecimento de aes concretas do Conselho de Medicina Veterinria para impedir a irregularidade. Trata-se de uma conivncia que faz com que a situao catica dos abatedouros estaduais e municipais se agrave. Os veterinrios fazem vista grossa e deixam passar as irregularidades, afirma Salazar, da Abrafrigo. As explicaes para esse tipo de comportamento so variadas: A gente v de tudo, de pagamento de propina a dono de frigorfico com costas quentes com a administrao pblica, acrescenta.

A interferncia poltica, segundo os veterinrios,  um problema srio que acaba desmotivando a categoria. Muitas vezes fazemos a interveno para fechar o estabelecimento e conseguimos lacrar. Mas depois o poder pblico municipal intervm mostrando somente planos de investimentos e eles conseguem a liberao do juiz para voltar a funcionar.  essa a nossa grande dificuldade: a ingerncia de prefeitos, o pedido de um amigo do prefeito e de todo o poder pblico, afirma Arruda, presidente do CFMV, em defesa da classe. To logo um fiscal veterinrio faz a identificao de um animal doente, a conduta normal  informar a Defesa Sanitria Animal. Esse fato condena o gado e tira toda a possibilidade de o criador ter lucro. Em mdia, um boi tem 300 quilos de carne. Descartando-se esse animal, perdem-se cerca de R$ 1,2 mil.  um prejuzo muito grande para pequenos pecuaristas que abatem dez animais por semana. Por isso, muitas vezes, eles fazem ameaas aos veterinrios, diz Arruda. O problema  que, como ordem de classe, o CFMV deveria tomar medidas enrgicas e no apenas lamentar. Governantes coniventes com frigorficos e abatedouros que ameaam a sade pblica deveriam ser denunciados, e veterinrios que no cumprem sua misso deveriam ser proibidos de exercer a profisso. So medidas que dependem apenas do rgo de classe e que podem trazer resultados concretos.
 
Fonte: ONG Amigos da Terra, Sindicato Nacional dos Fiscais Federais Agropecurios (Anffa), United States Departament of Agriculture (Usda)



2. ELAS ESTO BEBENDO DEMAIS
So jovens, mulheres e esto ficando dependentes. Neste grupo, o consumo excessivo de lcool cresceu 36%. Um drama que ainda permanece sem a devida ateno
Joo Loes e Monique Oliveira

 RISCO - Hoje a mulher tem uma vida social intensa. E, em algumas situaes, bebe mais que os homens 

Juliana Silva comeou a beber aos 16 anos. Solitria, a paulistana encontrou na pinga com refrigerante o alento que buscava. Em menos de um ano, porm, a mesma bebida que parecia lhe trazer conforto se transformou em vcio. Juliana virou alcolatra. No era incomum que chegasse em casa s quatro horas da manh sem se lembrar do que tinha feito na noite anterior. Foram oito anos de bebedeira at procurar ajuda. Hoje, com 26 anos, depois de dois anos de tratamento intensivo no Alcolicos Annimos, ela se sente curada. Mas o cuidado com a bebida vai ser para sempre, afirma. A histria de Juliana  um exemplo doloroso do crescimento do alcoolismo entre as mulheres, um drama que cresce sem freio, mas que continua sem receber o cuidado devido no Brasil.
 
Em levantamento apresentado na ltima semana, a Universidade Federal de So Paulo (Unifesp) deu uma dimenso do tamanho do problema e de seu aumento. No estudo, que analisou variaes entre 2006 e 2012, ficou comprovada uma elevao de 36% no nmero de mulheres (particularmente as mais jovens) que praticam o que os especialistas chamam de binge  a ingesto de pelo menos quatro doses de lcool em menos de duas horas. Foi um crescimento maior do que o registrado entre os homens que bebem dessa maneira, que ficou em 29,4%. Quando o binge vira hbito, o caminho est aberto para a dependncia. E ainda no temos uma poltica sequer de controle do alcoolismo para a mulher, diz Ronaldo Laranjeira, professor de psiquiatria da Unifesp, diretor do levantamento e uma das maiores autoridades no assunto do Pas. Hoje, a nica ao de desestmulo ao lcool no Brasil  a se beber, no dirija, afirma.

Ignorar o problema ou trat-lo apenas como um apndice da grande questo que  o abuso do lcool no Brasil  um engano. S as especificidades do corpo feminino (leia quadro) j justificariam um protocolo e uma ateno diferentes. As mulheres tm necessidades e carncias muito peculiares, explica a psicloga Raquel Barros, fundadora da ONG Lua Nova, uma exceo no panorama brasileiro. A entidade tem financiamento da Secretaria Nacional Antidrogas para prover assistncia exclusiva a mulheres. A ajuda se estende a familiares e filhos. A ong atualmente atende oito Estados e planeja expanso para outras capitais e criao de centros de atendimento junto ao Ministrio da Sade. Espera-se que, com a situao exposta pela pesquisa da Unifesp, as carncias sejam finalmente suplantadas em larga escala.
 
Fonte: Ronaldo Laranjeira, professor titular de psiquiatria da Unifesp e diretor do Levantamento Nacional de lcool e Drogas (2006-2012)


3. CRAQUES NO BANCO DE RESERVAS
Marin pode ser substitudo pelos ex-jogadores Ronaldo ou Leonardo na presidncia do Comit Organizador Local (COL) da Copa do Mundo a um ano da realizao do Mundial. Isso ajuda ou atrapalha o evento?
 Tamara Menezes e Michel Alecrim

COTADOS - Ronaldo j  membro do COL
 
A um ano da Copa do Mundo, o comando do Comit Organizador Local (COL) do Mundial pode ser trocado pela Fifa. Jos Maria Marin, 80 anos, presidente do COL e da Confederao Brasileira de Futebol (CBF), passou a semana no olho do furaco. Sem trnsito com a presidenta Dilma Rousseff e em baixa com a entidade mxima do futebol, Marin j tem at substitutos cotados para o seu lugar: os ex-jogadores da Seleo Leonardo e Ronaldo  o Fenmeno  membro do COL desde 2011. Mesmo na CBF, a situao do cartola no  confortvel. Como ministro, no posso fazer nada, mas a Cmara e o Congresso, no geral, podem tomar as decises que julgarem adequadas, afirmou o ministro dos Esportes, Aldo Rebelo, em audincia pblica na Cmara dos Deputados na tera-feira 9, ao explicar por que o governo no pode intervir na entidade e tir-lo da presidncia. 

O comentarista e ex-jogador Jnior acredita que a possvel sada de Marin, ex-deputado pela Arena (1971-1979) e ex-governador de So Paulo, pode pr fim  desunio poltica que impera no COL. Nitidamente o governo no est satisfeito com essa gesto, diz Jnior, para quem esto faltando harmonia e integrao, elementos fundamentais para resolver obstculos ou imprevistos que surjam daqui para frente. 

Ter um ex-craque no COL, como ocorreu na Frana e na Alemanha, poderia ser a sada, diz o comentarista esportivo Juca Kfouri. Os dois ex-jogadores da Seleo Brasileira tm uma imagem positiva. Kfouri prefere Leonardo a Ronaldo. Hoje, ele (Fenmeno) tem muitos negcios que gerariam conflito de interesse com a funo. Alm disso, no tem preparo. O Leonardo seria um nome melhor, acredita. Aos 43 anos, Leonardo tem uma slida carreira na Europa. Foi treinador da equipe italiana Internazionale, dirigiu o Milan e  diretor esportivo do francs Paris Saint-Germain h dois anos. O que  ponto positivo para um,  negativo para outro: Embora seja um grande nome, duvido que possa assumir, pondera o ex-craque Zico, apontando justamente o cargo que ocupa no PSG como obstculo ao interesse de Leonardo.
 
Aos 36 anos, Ronaldo  cotado desde quando Ricardo Teixeira renunciou aos cargos que Marin assumiu, no ano passado. Ele  o nome ideal, sugere o ex-jogador Romrio, atual deputado federal pelo PSB do Rio de Janeiro. Na opinio dele, a atual gesto est empurrando a Seleo ladeira abaixo. Estamos na pior posio da histria no ranking da Fifa, frisa Romrio. Alm de ter cultivado imagem positiva como empreendedor, o Fenmeno j atua como porta-voz e embaixador da Fifa e tem bom trnsito no governo federal. A diferena entre Marin, Ronaldo e Leonardo  a legitimidade. Os jogadores so reconhecidos, admirados. Marin  integrante da burocracia do Estado, diferencia Flvio de Campos, professor da Universidade de So Paulo (USP) e coordenador do Ludens (Ncleo Interdisciplinar de Estudos sobre Futebol). 

Uma troca de comando s vsperas da Copa das Confederaes, em junho, pode ter vrias consequncias. Com certeza no  bom para a nossa imagem. Pode, inclusive, prejudicar a Seleo psicologicamente, alerta Francisco Novelletto, presidente da Federao Gacha de Futebol. Se a mudana ocorrer e um dos ex-jogadores assumir, os cartolas esperam que o novo presidente esteja capacitado para as suas atribuies. Tudo depende se ele  competente, se tem condies de liderana e experincia na rea esportiva, resume Paulo Schettino, presidente da Federao Mineira de Futebol. Zico cita os bons exemplos de Platini e Beckenbauer em Copas passadas (leia quadro). Eles assumiram o risco e no ficaram s posando, tiveram participao grande no Mundial, afirma o dolo do Flamengo. Com oramento de R$ 896 milhes e a responsabilidade de cuidar da logstica dos jogos do mundial, o Comit Organizador Local, procurado pela reportagem de ISTO, comunicou, em nota, que est dedicado  entrega da Copa das Confederaes e conta com o total envolvimento do presidente nos preparativos.
 
Apesar disso, nos ltimos dias, aumentou o desconforto com a presena de Marin no COL em funo de seu envolvimento com a ditadura militar. Um discurso dele de 1976, enaltecendo o delegado Srgio Paranhos Fleury, principal agente do governo de comando das aes secretas do DOI-Codi em So Paulo, e investigaes publicadas pelo portal UOL, indicando que ele defendeu efusivamente o golpe em discurso de maro de 1977, geraram incmodo. Constaria ainda de documento do Servio Nacional de Informaes (SNI) que sua candidatura a deputado estadual teve apoio de crculos militares. O atual dirigente da CBF teria sido descrito como integrado ao golpe de 1964.

A um ano da Copa do Mundo, o comando do Comit Organizador Local (COL) do Mundial pode ser trocado pela Fifa. Jos Maria Marin, 80 anos, presidente do COL e da Confederao Brasileira de Futebol (CBF), passou a semana no olho do furaco. Sem trnsito com a presidenta Dilma Rousseff e em baixa com a entidade mxima do futebol, Marin j tem at substitutos cotados para o seu lugar: os ex-jogadores da Seleo Leonardo e Ronaldo  o Fenmeno  membro do COL desde 2011. Mesmo na CBF, a situao do cartola no  confortvel. Como ministro, no posso fazer nada, mas a Cmara e o Congresso, no geral, podem tomar as decises que julgarem adequadas, afirmou o ministro dos Esportes, Aldo Rebelo, em audincia pblica na Cmara dos Deputados na tera-feira 9, ao explicar por que o governo no pode intervir na entidade e tir-lo da presidncia. 
 
O comentarista e ex-jogador Jnior acredita que a possvel sada de Marin, ex-deputado pela Arena (1971-1979) e ex-governador de So Paulo, pode pr fim  desunio poltica que impera no COL. Nitidamente o governo no est satisfeito com essa gesto, diz Jnior, para quem esto faltando harmonia e integrao, elementos fundamentais para resolver obstculos ou imprevistos que surjam daqui para frente. 
 
Ter um ex-craque no COL, como ocorreu na Frana e na Alemanha, poderia ser a sada, diz o comentarista esportivo Juca Kfouri. Os dois ex-jogadores da Seleo Brasileira tm uma imagem positiva. Kfouri prefere Leonardo a Ronaldo. Hoje, ele (Fenmeno) tem muitos negcios que gerariam conflito de interesse com a funo. Alm disso, no tem preparo. O Leonardo seria um nome melhor, acredita. Aos 43 anos, Leonardo tem uma slida carreira na Europa. Foi treinador da equipe italiana Internazionale, dirigiu o Milan e  diretor esportivo do francs Paris Saint-Germain h dois anos. O que  ponto positivo para um,  negativo para outro: Embora seja um grande nome, duvido que possa assumir, pondera o ex-craque Zico, apontando justamente o cargo que ocupa no PSG como obstculo ao interesse de Leonardo.
 
Aos 36 anos, Ronaldo  cotado desde quando Ricardo Teixeira renunciou aos cargos que Marin assumiu, no ano passado. Ele  o nome ideal, sugere o ex-jogador Romrio, atual deputado federal pelo PSB do Rio de Janeiro. Na opinio dele, a atual gesto  est empurrando a Seleo ladeira abaixo. Estamos na pior posio da histria no ranking da Fifa, frisa Romrio. Alm de ter cultivado imagem positiva como empreendedor, o Fenmeno j atua como porta-voz e embaixador da Fifa e tem bom trnsito no governo federal. A diferena entre Marin, Ronaldo e Leonardo  a legitimidade. Os jogadores so reconhecidos, admirados. Marin  integrante da burocracia do Estado, diferencia Flvio de Campos, professor da Universidade de So Paulo (USP) e coordenador do Ludens (Ncleo Interdisciplinar de Estudos sobre Futebol). 
 
Uma troca de comando s vsperas da Copa das Confederaes, em junho, pode ter vrias consequncias. Com certeza no  bom para a nossa imagem. Pode, inclusive, prejudicar a Seleo psicologicamente, alerta Francisco Novelletto, presidente da Federao Gacha de Futebol. Se a mudana ocorrer e um dos ex-jogadores assumir, os cartolas esperam que o novo presidente esteja capacitado para as suas atribuies. Tudo depende se ele  competente, se tem condies de liderana e experincia na rea esportiva, resume Paulo Schettino, presidente da Federao Mineira de Futebol. Zico cita os bons exemplos de Platini e Beckenbauer em Copas passadas (leia quadro). Eles assumiram o risco e no ficaram s posando, tiveram participao grande no Mundial, afirma o dolo do Flamengo. Com oramento de R$ 896 milhes e a responsabilidade de cuidar da logstica dos jogos do mundial, o Comit Organizador Local, procurado pela reportagem de ISTO, comunicou, em nota, que est dedicado  entrega da Copa das Confederaes e conta com o total envolvimento do presidente nos preparativos. 
 
Apesar disso, nos ltimos dias, aumentou o desconforto com a presena de Marin no COL em funo de seu envolvimento com a ditadura militar. Um discurso dele de 1976, enaltecendo o delegado Srgio Paranhos Fleury, principal agente do governo de comando das aes secretas do DOI-Codi em So Paulo, e investigaes publicadas pelo portal UOL, indicando que ele defendeu efusivamente o golpe em discurso de maro de 1977, geraram incmodo. Constaria ainda de documento do Servio Nacional de Informaes (SNI) que sua candidatura a deputado estadual teve apoio de crculos militares. O atual dirigente da CBF teria sido descrito como integrado ao golpe de 1964.


4. HISTRIAS QUE ASSUSTAM A ONU
No Brasil, 40% da populao carcerria  de presos provisrios, e relatrio indito das Naes Unidas alerta o Pas para o excesso de detenes ilegais. Muitos desses detentos, inocentes, ficam com sequelas irreversveis
Nathalia Ziemkiewicz

Em 2003, o ajudante de pedreiro Heberson Oliveira foi acusado de entrar na casa de vizinhos na periferia de Manaus, arrastar uma criana para o quintal e estupr-la enquanto os pais dormiam. Heberson dizia que, na noite do crime, estava em outro bairro da cidade. Ningum acreditou. A vtima, uma menina de 9 anos, se viu pressionada a reconhec-lo como algoz e dar um desfecho ao escndalo. Embora a descrio do suspeito divergisse das caractersticas fsicas de Heberson, ele foi para a cadeia. L aguardou julgamento por quase trs anos jurando inocncia. A me chegou a ser hospitalizada ao receber a notcia. Com a vida que a gente levava, no podia garantir que ele nunca roubaria, diz Socorro Lima. Mas no seria capaz de uma coisa dessas. Dona de casa e pensionista, ela pegou emprstimos para bancar advogados. Atrs das grades, o rapaz sem antecedentes criminais assistiu a rebelies, entrou em depresso, foi abusado sexualmente e contraiu o vrus HIV.

DOR - Daniele foi para a cadeia acusada de colocar cocana na mamadeira da filha. Apanhou na priso e perdeu parte da audio e da viso. Inocentada, tenta receber uma penso do Estado
 
E nada de audincia ou sentena. At que a defensora pblica Ilmair Siqueira assumiu o caso: ela alertou o promotor de que no havia provas ou testemunhas para acusar seu cliente. O juiz pediu desculpas pela injustia e concedeu a liberdade. Mas Heberson nunca mais seria um homem livre. Tentou um emprego numa loja de materiais de construo e foi vtima do preconceito entre os prprios colegas, que temiam at beber gua da mesma torneira. Sete anos aps sua absolvio, o rapaz permanece desempregado. Hoje, perambula pelas ruas catando latinhas e consumindo pedras de oxi. Eu morri quando me fizeram pagar pelo que no fiz, diz Heberson aos 32 anos, explicando por que no toma o coquetel contra a Aids. Todos os dias tento esquecer o que vivi, diz ele, vtima de um sistema judicirio que tambm est doente e, segundo as Naes Unidas, desperta graves preocupaes.
 
No final de maro, peritos do Conselho de Direitos Humanos da ONU visitaram penitencirias de cinco capitais brasileiras. O Pas chama a ateno pelo acelerado crescimento de sua populao carcerria, que alcanou a quarta posio no ranking mundial. H 550 mil detentos no Brasil, nmero cinco vezes maior que em 1990. O grupo investigou detenes arbitrrias  ilegais ou desnecessrias. No documento preliminar entregue s autoridades, os peritos destacaram o uso excessivo de privao de liberdade e a falta de assistncia jurdica gratuita. Ao contrrio do que se preconiza mundo afora, a regra tem sido punir antes para averiguar depois. Cerca de 40% do total so presos provisrios, que ainda no receberam sentena.

DRAMA - Heberson foi preso por engano, acusado de violentar uma criana. Passou dois anos detido e contraiu HIV na cadeia. Hoje, desempregado e viciado em drogas, s conta com o apoio da me
 
A priso temporria no poderia ultrapassar 120 dias, prazo mximo para que o processo seja julgado. Mas a morosidade da Justia  o grande entrave. O acusado de um furto, por exemplo, leva em mdia seis meses para ser ouvido pela primeira vez por um juiz. Nesse perodo, ele convive com assassinos e traficantes em ambientes degradantes.  uma tortura institucionalizada: falta gua para banho e descarga, acesso a medicamentos e itens de higiene, os presos fazem rodzio porque nem no cho h espao para dormir, afirma Bruno Shimizu, defensor pblico do Estado de So Paulo. No  toa, a taxa de reincidncia gira em torno de 80%. Depois da barbrie na cadeia, o preso sai e desconta sua raiva na sociedade, diz Marcos Fuchs, diretor da ONG Conectas. Apesar das taxas recordes de aprisionamento, os indicadores de criminalidade crescem. Entre 1990 e 2010, houve um aumento de 63% nos homicdios, segundo o Ministrio da Sade.
 
Nos delitos menores, a legislao recomenda medidas alternativas como o monitoramento eletrnico, priso domiciliar, prestao de servios  comunidade, etc. Elas desafogariam um sistema com dficit de 240 mil vagas. Os visitantes da ONU tambm perceberam que o princpio de proporcionalidade muitas vezes  ignorado. Em outras palavras, o ladro de uma caixa de leite no pode ter sua liberdade condicionada a uma fiana de trs salrios mnimos. Ou continuar preso, sem condies de pag-la. Alm disso, no h defensores pblicos para a demanda. Os Estados de Santa Catarina e Paran, por exemplo, no tm nenhum. H cidades com um defensor para 800 casos, o que torna impossvel uma boa defesa. Em um pas onde a maioria dos presos  pobre,  extremamente preocupante que no haja assistncia jurdica suficiente disponvel para aqueles que precisam, disse o perito Roberto Garretn. Procurado, o Ministrio da Justia no quis se pronunciar sobre o documento da ONU, que ser apresentado oficialmente com recomendaes ao governo brasileiro em 2014.

As vtimas dos erros da Justia fazem fila por indenizaes. Quem vence a disputa contra o Estado ainda corre o risco de morrer sem o dinheiro, na longa fila de pagamentos da dvida pblica. Desde 2008, Daniele de Toledo Prado tenta receber uma penso de trs salrios mnimos. Ela ficou 37 dias presa, acusada de matar a filha colocando cocana na mamadeira. Daniele foi agredida por 12 colegas de cela que a reconheceram em uma reportagem na tev. Entre murros e chutes, sob os gritos de monstro, ela desmaiou e s recebeu atendimento no dia seguinte. Perdeu viso e audio do lado direito. Aos 28 anos, Daniele conta que no consegue emprego por causa das deficincias, fruto do episdio.
 
O p branco era, na verdade, remdio para controlar as crises convulsivas do beb. Hoje ela est desempregada e vive com o filho de 10 anos na casa de parentes. Para me prender sem provas foi rpido. Agora enfrento a lentido para receber algo que sequer vai reparar a minha dor, diz. Ao contrrio dela, Heberson no pediu indenizao porque perdeu a esperana na Justia. Preso ao passado, ele acredita que tudo foi uma provao de Deus para testar sua f. Deitado nas caladas de Manaus, ele teme que as memrias o enlouqueam de fato. Toda vez que me tratam feito bicho, penso que no sabem o que j passei....


5. COMEOU A ONDA DE DEMISSES 
Dispensas aumentam at 60% nos primeiros dias aps a entrada em vigor da PEC das Domsticas. O Congresso j discute como desonerar os empregadores para que o custo de manter funcionrios no pese tanto
Mariana Brugger e Wilson Aquino 

"Albina, nem precisa trocar de roupa. Foi assim que a domstica carioca Albina Costa, 52 anos, foi recebida pelo patro quando chegou para trabalhar na segunda-feira 1, s 8h, como sempre fazia nos ltimos oito anos. Na sequncia, ele explicou: No posso mais te pagar por causa dessa nova lei. Durante quase uma dcada, a profissional  que recebia R$ 802 e tinha carteira assinada  manteve a rotina de pegar nibus e metr de Duque de Caxias, na Baixada Fluminense, no Rio de Janeiro, at o Flamengo, na zona sul. Cozinhava, lavava a roupa, arrumava a casa de quatro quartos e, s 15h, com o dever cumprido, fazia o percurso de volta. Agora, desempregada, se divide entre dois sentimentos: de um lado, acha que a chamada PEC das Domsticas, que estende  categoria os mesmos direitos j concedidos s outras desde a Constituio de 1988, trar benefcios. De outro, teme uma onda de dispensas, com razo. A gente estima que o aumento de demisses chegou a 60% nessa primeira semana de lei, afirma Luiza Batista Faria, presidente do Sindicato dos Empregados Domsticos de Pernambuco.

Os nmeros de Pernambuco impressionam: Antes, fazamos, no mximo, dez homologaes dirias no sindicato. Nessa primeira semana em que a lei est valendo, chegamos a ter 25 rescises de contrato num nico dia, afirma Luiza. Como a grande maioria das demisses de domsticas no passa pela entidade de classe,  impossvel, neste momento, ter um nmero preciso da realidade nacional. Mas todos os sindicatos consultados pela reportagem de ISTO acusam queda de empregos domsticos. O normal eram duas, trs dispensas por ms. Nos ltimos 15 dias, foram dez, atesta Neuza Alves Garcia de Almeida, presidente do Sindicato das Trabalhadoras Domsticas de Niteri, na regio metropolitana do Rio. Em So Paulo, de cada dez empregadas que procuraram o sindicato regional na semana passada, duas tinham sido dispensadas. Em dois ou trs meses poderemos saber se a nova lei causou muito prejuzo ao segmento de empregados domsticos, avalia Fernando Holanda Barbosa Filho, pesquisador da rea de economia aplicada do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre) da Fundao Getulio Vargas. Mas, com certeza, deve ocasionar mais informalidade.
 
A desorientao e falta de entendimento por parte das famlias empregadoras repercute nos vrios sindicatos dos empregadores domsticos. Em So Paulo, segundo a presidenta Margareth Galvo Carbinato, o nmero de atendimentos para informaes pulou de dez para 50 por dia. As patroas esto apavoradas, diz ela. No Rio, saltou de 15 para uma mdia de 60. A advogada Evelyn Rosenzweig passou da fase do impacto para a ao. Fez os clculos e decidiu dispensar o motorista. A conta ficou alta para a famlia com a incorporao das horas extras, justifica ela, que pagava R$ 1,7 mil por ms, mais benefcios. Se continuasse com o empregado, brevemente teria que fazer o recolhimento do Fundo de Garantia do Tempo de Servio (FGTS), pagar adicional noturno e horas extras e indenizao de 40% sobre o saldo do fundo em caso de dispensa sem justa causa. Agora, para o custo no pesar tanto no bolso dos empregadores, o Congresso discute como desoner-los (leia quadro).

"A conta ficou alta com a incorporao das horas extras" Evelyn Rosenzweig, que demitiu o motorista e agora dirige o prprio carro
 
Para especialistas, a situao dos cuidadores de idosos  uma das mais complexas. De um lado, esto pessoas doentes e que vivem de aposentadoria. De outro, profissionais que trabalham 48 horas com 24 horas de descanso.  a rea mais delicada, analisa o professor Claudio Considera, do Departamento de Economia da Universidade Federal Fluminense (UFF). O aposentado Clemente Augusto Alves, 76 anos, sabe disso. Minha maravilhosa loura linda  que  como ele chama a esposa, de 74, que tem Alzheimer  precisa de duas cuidadoras, que fazem rodzio. Como vou arcar com os custos novos? Como vou pagar 40% de multa se tiver que demitir?, indaga.
 
O que pode parecer problema individual , na verdade, nacional, uma vez que o Brasil ter a sexta maior populao mundial de idosos em 2025. A lei no levou isso em considerao. No podia ser dessa maneira, tinha que ser feita com mais cuidado e com o olhar voltado para o futuro.  apavorante, afirma Maria Aparecida Guimares, presidente da Associao de Parentes e Amigos de Pessoas com Alzheimer, Doenas Similares e Idosos Dependentes (Apaz). De fato, as clnicas e casas de repouso j acusam um aumento de 50% na procura por vagas, o que mostra a inteno de familiares de transferir seus pais e avs para um asilo. Desde a PEC, foi um estouro de telefonemas. Em nmeros gerais, pode-se dizer que o aumento da procura foi de 50%, disse Valdemir Lopes, diretor-executivo da Associao Brasileira das Casas de Repouso (Abracari). Esta  a nova realidade do Brasil.


6. O FIM DE DAVID: TAMANHO  DOCUMENTO
Pesquisa cientfica comprova que as parceiras sentem mais prazer sexual com homens dotados de pnis de maiores dimenses
Antonio Carlos Prado

Repercutiu em todo o mundo na semana passada um amplo estudo desenvolvido por cientistas de diversos pases coordenados por pesquisadores australianos. Ao contrrio do que sempre se apregoou, a pesquisa concluiu que as mulheres preferem sim os homens que possuem pnis de maiores dimenses. Em outras palavras, tamanho  documento  e elas sentem melhor prazer, no que se refere ao produto interno, mais com pibo do que com pibinho. A tradio de que o comprimento do rgo nada tem a ver com a atrao tem razes numa cultura predominantemente masculina, como se o prazer somente pudesse ser pensado pelo homem e a mulher tivesse de viver eternamente na passividade. A nova pesquisa, que vem na continuidade de outras realizadas nos EUA e na Inglaterra, derruba assim um dos mitos da sexualidade.

Os ombros e quadris de esttuas romanas, como essas que representam Vnus e Marte (175 d.C), excitaram as mulheres que participaram do estudo realizado na Austrlia. Mas a ateno fixou-se mesmo em outro ponto que, na opinio delas, poderia ser maior
 
A mulher no  educada para olhar a genitlia masculina, diferentemente dos homens, que olham as dimenses dos seios, coxas, etc. A mulher pensa no tamanho do pnis depois da conquista, j na relao sexual, disse  ISTO a psicloga e sexloga Sheila Reis, integrante da Sociedade Brasileira de Estudos em Sexualidade. O inovador estudo foi realizado com 105 mulheres. A elas foram exibidas, em tamanho natural, 53 imagens de homens, geradas por meio da mais alta tecnologia de computao grfica, que combinaram as seguintes variveis a possibilitar 343 combinaes: altura, genitlia, largura dos ombros e dos quadris. Importante: as mulheres no sabiam que o foco da pesquisa era a atrao pelas dimenses do pnis em repouso. Pois bem, mesmo assim, elas manifestaram clara preferncia pelas imagens em que os homens altos apresentavam pnis maiores  maiores relativamente entre eles e maiores em termos absolutos se comparados aos tamanhos considerados padro: no Brasil, por exemplo, a dimenso mdia do pnis ereto  de 16,10 cm. Nos EUA e no Congo, respectivamente,  de 12,9 cm e de 17,93 cm. O estudo torna-se mais significativo metodologicamente em um ponto: as mulheres preferem homens altos, e entre os altos preferem os que possuem pnis de maior extenso. Em toda a literatura cientfica disponvel h trabalhos que asseguram que as mulheres tm preferncia e se realizam mais com rgos maiores, que no cheguem,  claro, a feri-las, diz o professor do departamento de biologia da Universidade de Ottawa, Brian Mautz, coordenador da pesquisa relatada pela publicao Proceedings of the National Academy of Sciences. Ele acrescenta: A influncia do tamanho do pnis aumenta ainda mais quanto mais alto  o homem.

No corpo das artes plsticas e no corpo da cincia, a genitlia j foi bem deixada de lado.  fato, porm, que so justamente os cientistas que decretam agora o fim de David, obra do gnio de Michelangelo. Por que um pnis quase imperceptvel em David? H duas respostas universais. A primeira  porque o olhar do prazer da mulher no interessava. A segunda se deve ao fato de a esttua de David ser posterior s obras de Andrea del Verrocchio e Donatello (Donato di Niccol di Betto Bardi). Assim, David  a exaltao do governo j republicano, e prova disso  que no empunha a espada como as esculturas do antigo regime. Quanto  cincia, uma vez fixada que a profundidade da cavidade vaginal  de cerca de oito centmetros, assentou-se tambm que um pnis, ainda que s tenha oito centmetros em ereo, consegue dar prazer  mulher. Tudo muito cmodo, no? Na dcada de 1970, os pesquisadores americanos William Masters e Virginia Johnson introduziram o conceito de que a rea de maior sensibilidade sexual feminina  a entrada da vagina e, portanto, a questo do tamanho do pnis encolheu. Tudo ficou mais cmodo ainda, para os homens,  claro. Sabemos atualmente que o tecido do canal vaginal  diferente do clitris e pode, assim, estimular outras reas do crebro que levam ao prazer. Ento,  claro que o tamanho do pnis faz diferena, disse  ISTO a ginecologista Carolina Ambrogini, da Universidade Federal de So Paulo. Se para os homens so valiosos os atributos fsicos da mulher, por que para a mulher no podem ser importantes os atributos do homem? Ou seja: j estava mais do que na hora de emendar o velho conceito de que tamanho no  documento.


7. OS ESPERTOS DELATORES DE HITLER
Como cinco agentes duplos, trapaceiros e excntricos, infiltraram-se no servio de inteligncia alemo e armaram uma emboscada para as tropas nazistas na Segunda Guerra Mundial
Rodrigo Cardoso

Em junho de 1944, os Aliados deram o primeiro e mais importante passo para reconquistar a Europa Ocidental tomada por Hitler. Relembre, em vdeo, como foram os desembarques na Normandia:

Soa inacreditvel, apesar de absolutamente verdadeiro, o fato de uma unidade militar incomum ter iniciado o processo que ps fim  Segunda Guerra Mundial. Brutus era um piloto de caa polons de 1,67 m. Bronx, uma peruana que amava indiscriminadamente homens e mulheres e era viciada em jogos de azar. Treasure, francesa, tinha paixo pelo seu co e se tornou uma mulher histrica ao se ver longe dele. O srvio Tricycle era um dom-juan com queda por festas e lcool. E, finalmente, o espanhol Garbo fora um avicultor diplomado em uma das maiores escolas de criadores de galinha da Espanha. Codinomes, respectivamente, de Roman Czerniawski, Elvira de la Fuente Chaudoir, Lily Sergeyev, Dusan Popov e Juan Pujol Garca. Esses agentes e suas personalidades pitorescas formaram o ncleo do sistema Double Cross do servio de segurana britnico especializado na converso de espies nazistas em agentes duplos das Foras Aliadas. Sem disparar um tiro, de mentira em mentira contada aos alemes, eles foram uma das principais armas a derrubar os soldados de Hitler na batalha que deu incio  queda do nazismo.
 
No episdio conhecido como Dia D, ocorrido em 6 de junho de 1944, tropas aliadas invadiram a Normandia, no norte da Frana, enquanto a maior concentrao do Exrcito do Fhrer aguardava um ataque que jamais viria a acontecer em Calais, a leste. Foram esses cinco espies que tornaram o embuste crvel. Essa estratgia est contada pela primeira vez no livro Jogo Duplo  A Verdadeira Histria dos Espies do Dia D, do escritor ingls Ben Macintyre, tambm colunista e editor do jornal ingls The Times. A ideia de que tais indivduos tiveram nas mos o destino de uma operao militar to importante  perturbadora, disse o autor ao jornal portugus Correio da Manh. Foi lanado pela editora D. Quixote, em Portugal, pas no qual moraram muitos delatores na poca da Segunda Guerra.  extraordinrio que esse jogo de apostas que ps a vida de milhares de cidados em risco tenha dependido do carter de pessoas to peculiares e excntricas. Ningum confiaria nelas para alguma coisa nem em tempos de paz, diz o autor.
 
Assim podia se pensar do espanhol Garca, o agente Garbo. Antes de arapongar para os britnicos, dirigiu um avirio. Detalhe: no gostava de galinhas. Tambm havia sido um oficial de cavalaria  mas tinha medo de cavalos. Aos alemes dizia que espionava os britnicos in loco, quando, na verdade, morava em Lisboa. Mesmo assim, passava informaes sobre a Marinha local e sobre fabricantes de munio que possua, valendo-se de livros de segunda mo e do acervo da biblioteca pblica da capital portuguesa. Garbo criou um exrcito de espies fictcios supostamente recrutados por ele a servio de Hitler. Dizia ter 24 agentes, mas apenas um, ele prprio, existia de verdade. Um desses personagens inventados era o empresrio suo-alemo morador de Liverpool chamado William Gebers, que precisou ser morto para que o espanhol no casse em contradio. O MI5, o servio de segurana britnico, plantou o obiturio Gebers no Liverpool Echo, para que Garca pudesse recort-lo e envi-lo  Alemanha. Recebeu de volta uma carta de psames.

Ao contrrio de Garca, Czerniawski, o agente Brutus, chegou a ter uma rede de espionagem de verdade com meia centena de agentes na Frana at ser preso com o desmonte da clula pelos alemes. Antes de ser levado ao fuzilamento, o polons conseguiu um acordo a fim de ser enviado  Inglaterra e espionar para os nazistas. J em liberdade, aproveitou o trnsito entre o inimigo para atuar a servio dos britnicos. Segundo Macintyre, os alemes no duvidavam de agentes como Garbo e Brutus porque no queriam descobrir que estavam sendo enganados: Hitler exigia resultados concretos e, se em um sistema hierrquico to rgido e ditatorial o chefe diz que quer resultados rpidos e volumosos, os servios secretos reproduzem o que o lder quer ouvir sem se importarem se  verdade ou no.
 
Essa brecha permitiu que Dusan Popov, um mulherengo compulsivo, vivesse dias de maraj com o dinheiro que recebia dos alemes. Dos aliados, esse srvio no exigia salrio, desde que fosse abastecido de lcool, divertimento e mulheres. As dvidas de Popov, grandes e pequenas, no o largavam, escreve o autor. Devia mais de US$ 10 mil ao FBI, alguns milhares ao MI5 em Nova York, algumas centenas  companhia telefnica de Long Island. No pagou ningum e limitou-se a enviar as contas ao prprio MI5, juntamente com a fatura do seu alfaiate, referente a 18 camisas de seda e 12 lenos com monograma. Macintyre teve acesso a tais detalhes aps o servio de segurana britnico ter tornado pblico seus arquivos da guerra. A correspondncia da peruana Elvira Chaudoir mostra que os relatrios produzidos por ela eram avaliados como muito importantes pelos alemes. Foi, no entanto, com Lily, a agente Treasure, que as Foras Aliadas correram mais risco. Tudo porque a emigrao inglesa no permitiu que ela embarcasse com o seu cachorro, Babs  exigiu que ficasse isolado seis meses at que fosse declarado livre de doenas. Os arquivos da guerra revelaram que a supervisora da espi sugeriu que a Marinha britnica transportasse o animal ilegalmente at ela. E isso s vsperas de um combate decisivo.
 
Apesar das idiossincrasias, esses agentes duplos vinham demonstrando uma capacidade mpar de influenciar a estratgia alem. Cinco dias antes do Dia D, o Fhrer declarou ao seu confidente, o general japons Hiroshi Oshima, que tinha indicadores bvios dos agentes para acreditar que os aliados fariam uma manobra de diverso na Normandia e promoveriam uma invaso mais poderosa em Calais. Hitler depositava uma confiana quase mtica em Garbo, segundo um relatrio do MI5. Mesmo depois do fim da Segunda Guerra, militares alemes preferiam acreditar numa mudana de planos dos aliados feita na ltima hora a admitir que tinham sido ludibriados. Eis a prova, enviada ao espanhol Garbo pelos seus superiores alemes, dois meses aps a invaso aliada: O Fhrer lhe concedeu a Cruz de Ferro pelos seus servios extraordinrios. Soa inacreditvel, mas, novamente,  verdade.


8. AT QUANDO TEREMOS VTIMAS DA IMPUNIDADE?
O assassinato de um jovem paulistano por um menor prestes a completar 18 anos une polticos e sociedade na luta por penas mais duras a adolescentes que cometem crimes graves
Natlia Mestre e Suzana Borin

 FUTURO INTERROMPIDO - Victor Hugo, chamado de Vito pelos amigos, cursava rdio e tev e tinha o sonho de ser comentarista de futebol. Abaixo, com a namorada, Isadora

Sorrisos, amizades, paixes, sonhos e uma vida inteira pela frente. Tudo isso deixou de existir para Victor Hugo Deppman na tera-feira 9. O jovem de 19 anos, morador do bairro do Belm, na zona leste de So Paulo, voltava de metr para casa aps um dia intenso de estudos e trabalho. Eram 21h e ele j havia jantado, pois o objetivo era apenas trocar de roupa e retornar para as quadras da faculdade Csper Lbero, na Avenida Paulista. L, ele jogaria com os amigos da Atltica, no time do curso de rdio e tev, no qual estava matriculado. Na mochila, carregava seu material escolar, a carteira com R$ 5 e um uniforme do Inferno Vermelho, o apelido da equipe que defendia na faculdade. Nas mos, trazia o celular. Abordado por um menor, a poucos passos do porto de seu condomnio, Victor entregou o aparelho, mas o assaltante queria mais. Pediu para que ele entregasse a mochila. O rapaz, instrudo pela famlia a nunca reagir a um assalto, tentou tir-la das costas. Mas a inteno de matar do menor foi mais rpida. Victor morreu em frente a sua casa com um tiro na cabea  o disparo foi ouvido pela famlia. A vida do meu filho foi trocada por um celular. Ela foi tirada pelas mos de um homem que estava a trs dias de completar 18 anos, disse Jos Valter Deppman, pai de Vito, como o jovem estudante era conhecido pelos amigos.

A morte estpida de Victor trouxe  tona, novamente, o debate sobre a maioridade penal. Colegas do estudante saram em passeata na Paulista pedindo a reduo da idade mnima para aplicao de penas mais duras em determinados crimes. O governador Geraldo Alckmin tambm defende a medida e um projeto com esse objetivo, apresentado no Congresso como uma emenda  Constituio  uma PEC , pode ser votado na prxima semana na Comisso de Constituio e Justia (CCJ) do Senado. Minha proposta  que se mantenha a maioridade penal em 18 anos, mas que essa regra possa ser desconsiderada em alguns casos, como tortura, terrorismo, crimes hediondos e alto ndice de reincidncia em leso corporal grave ou roubo qualificado, diz o senador Aloysio Nunes Ferreira (PSDB-SP).

 o momento de a sociedade enfrentar essa questo. Afinal, se um adolescente de 16 anos tem maturidade suficiente para votar, escolher seu governante e seu representante no parlamento, como um adulto, por que no pode ser punido quando comete crimes graves? O nosso Cdigo Penal ainda est em 1940, quando foi implantado, e no leva em conta as mudanas ocorridas na sociedade, diz Marcos Pereira, advogado especialista em direito e processo penal pela Universidade Presbiteriana Mackenzie. Um adolescente de 16 anos de 1940  muito diferente de um adolescente de 16 anos de hoje em dia, principalmente por causa da internet. Acredito que ele sabe muito bem o que est fazendo e por isso pode ser responsabilizado penalmente. Os pais de Victor prometem carregar essa bandeira e lutar pela aprovao da PEC em Braslia. A morte do meu filho no vai ser s mais uma estatstica, diz Marcia Rita Riello Deppman, que, preocupada com a violncia de So Paulo, costumava ligar para o jovem cinco vezes por dia.

"A vida do meu filho foi tirada pelas mos de um homem que estava a trs dias de completar 18 anos" Jos Valter Deppman, acima com a mulher, Marcia Rita
 
Victor cresceu no bairro do Belm, em uma famlia de classe mdia. Filho de um representante comercial e uma advogada, teve a infncia marcada por uma asma muito forte que atrapalhava seu sonho de ser jogador de futebol. Apenas em 2006, aps um tratamento experimental no Hospital das Clnicas, ele superou a doena. Santista roxo numa famlia de palmeirenses, pensava em unir a paixo pelo futebol com o trabalho e, por isso, decidiu cursar rdio e tev. Ele tinha adorao pelo (apresentador esportivo) Tiago Leifert e j tinha ousado, inclusive, comentar algumas partidas durante o programa A Hora do Esporte, na Rdio Trianon conta o pai, Jos Valter. Segundo ele, o dia mais importante da curta vida do rapaz foi quando o av lhe presenteou com um rdio-gravador. Victor foi at Aruj, no interior de So Paulo, para agradec-lo: V, o senhor me deu o melhor presente da minha vida, disse ele.

Como qualquer jovem, ele fazia planos para o futuro, que pretendia dividir com a namorada, Isadora Cavalheiro Dias, tambm de 19 anos. Os dois sempre estudaram no mesmo colgio, o Agostiniano So Jos, no Belm. Ele era da turma dos bagunceiros e ela da dos estudiosos. Mas foi somente no terceiro ano do ensino mdio que eles se aproximaram e comearam a namorar. Planejavam agora fazer a primeira viagem juntos. Ele queria crescer profissionalmente, queria comear uma ps-graduao assim que acabasse a faculdade e estava pensado em criar condies para morar sozinho, conta Isadora. Quando voc pode imaginar que um quarteiro  exatamente a distncia entre o apartamento dele e o metr  pode separar voc da vida e da morte?

INDIGNAO - Com faixas e cartazes, estudantes fizeram um apelo pela paz e cobraram a reduo da maioridade penal

